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FRAGMENTOS DE VIDA, FRAGMENTOS DE MORTE | RAJA NASSAR

Quando mordemos aquele fruto colorido que julgamos saudável e apetitoso, nem sempre sua semente amadureceu, e podemos estar mordendo o útero imaturo da vida. O fruto que dá continuidade à vida é aquele que se encharca de mel até a própria morte, adquirindo o odor agridoce da quase podridão. Úteros, agora quase podres, geraram e guardaram sementes fortes, ansiosas pela continuidade da vida. Úteros que se soltam das copas, encharcados de mel, exalando o odor da sensualidade, para encontrarem na terra o acolhimento generoso que os recebe como parte da sua própria carne transformada. Podres, com a podridão que traz dentro de si a força viva das sementes que, logo depois, morrerão ao germinarem. Essa é a ressurreição, ressurreição da vida para uma teologia maior. Ressurreição através da força que deve ser exaltada: misturada à vida, misturada à morte, dentro da continuidade e do movimento da vida para exaurir-se nesse processo. Morte e vida, vida e morte. Como será contada a história dos doces úteros amadurecidos, implodidos na queda e incorporados no ventre maior? As suas sementes vigorosas terão memória? Quem contará a história dos frutos esquecidos na sua quase podridão? A terra? Terra acolhedora, terra generosa que recebe os tempos terminados, transformando-os novamente na mistura original para um novo surgir, quem sabe? Um novo viver, quem sabe?