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DA NATUREZA DAS COISAS | JÚLIA MAINARDI

Em seu romance de estréia a autora consegue tecer com maestria inesquecíveis retratos humanos de gente de carne, osso e sangue, vivendo "entre os riscos em que transcorre o breve tempo da vida", como diz Lucrécio em De rerum natura, na epígrafe de abertura do livro. Silvia, a apolínea Silvia, é um belíssimo retrato de mulher em luta pela sua identidade e independência. Cheia de anseios e emoções, mas aliando tudo a um profundo sentido de ética, seus atos são pensados e suas ações medidas com critérios de responsabilidade. Ana, a frágil, contraditória e talentosa artista, dependente e insegura, mas mesmo assim capaz de crescer, achar seu lugar no mundo e não mais como simples espectadora. Camila, bela, egoísta e complexa, luta pela sua sexualidade diferente e pelo sucesso profissional a qualquer preço. Carreiras, casamentos, filhos, amizades, amantes, tudo é dissecado com sensibilidade, poesia e inteligência. Os homens de Júlia são figuras interessantes - grandes "bruxos" -, fortes e frágeis ao mesmo tempo, mas sempre perplexos diante dos novos papéis que lhes são exigidos. Paulo, egocêntrico, vaidoso, brilhante, mas incapaz de perceber a realidade próxima ao seu nariz; Gustavo, sempre em fuga da realidade (chegando até ao suicídio), dando a sua vida desfecho inesperado. Marcel, culto e dionisíaco, eterno apreciador do ser humano - sejam homens ou mulheres -, sensível artista plástico que constrói carreira de sucesso em New York. E mais, João Baptista, Daniel, Virginia, Rodolfo, Magda, Laura, Francisco... Júlia Mainardi consegue, o que é raro, tecer a teia da vida desse grupo de alta classe média, freqüentadora do "circuito Elizabeth Arden", com enorme charme e espírito crítico, mas sem perder a ternura pela vida e pelos seres nela envolvidos.